A singularidade de Milton Hatoum em Dois Irmãos

Poucas vezes fiquei tão fissurada ao ler um livro. Dois irmãos, segundo romance de manauense Milton Hatoum, descendente de libaneses e vencedor do Jabuti de Melhor Romance em 1989 e 2006, foi o motivo de tamanha fissura. Começou com uma leitura despretensiosa, curiosidade sobre um autor até então desconhecido pra mim. Tal não foi a minha surpresa! Vi-me perdida, inserida na narrativa de um menino anônimo, a princípio, de um regionalismo diferente e um drama familiar intenso.

Dois irmãos é um romance que conta a história da tumultuada família dos gêmeos Yaqub e Omar. Família de origem libanesa que vive numa Manaus que se vê afundando com o passar dos anos depois de um breve período próspero. Apesar da história se passar em Manaus, a obra não deve ser entendida apenas como uma ficção regionalista, mas sim como um regionalismo revisitado, onde Hatoum mescla elementos específicos da região norte com elementos urbanos e também de origem árabe e européia.

Dois irmãos - Milton HatoumSão narradas durante todo o romance as desavenças dos dois irmãos, a falta de diálogo que existe entre eles por conta da incompatibilidade de gênios. Um é o oposto do outro. Enquanto o conservador Yaqub segue com os estudos e se torna um importante engenheiroem São Paulo; Omar é um revolucionário, incurável boêmio e inconseqüente. Yaqub é afastado de sua família ainda criança. Essa separação, ao que tudo indica no início da trama, é uma tentativa de trégua entre os gêmeos, mas que vai deixar marcas em Yaqub para toda a vida. Ele sofre com os mimos dados por sua mãe ao irmão, mimos que evidenciam a preferência de Zana pelo caçula, apelido dado a Omar por ter sido o segundo a nascer.

O narrador conta a história de uma maneira não linear, ora lembra de um fato antigo, ora lembra de um mais recente. É narrada a vida do jovem imigrante Halim (pai dos meninos) ao chegar a até então produtiva Manaus e seu doentio casamento com Zana. A ditadura entra na trama num certo momento da história se tornando pano de fundo para os acontecimentos posteriores. Domingas, a empregada da casa, e seu filho, de pai desconhecido, são também importantes personagens que vão sendo apresentados ao longo da narrativa.

Os gêmeos têm uma irmã caçula, Rânia, que vive sempre à margem de sua família e ajuda seu pai no momento em que ele mais precisa dela. Hatoum constrói com maestria em Dois irmãos esse instigante drama familiar. Na voz do narrador, o casarão é colocado em primeiro plano, a vida dessa família é montada e desmontada, misturada à decadente Manaus. A relação conflitante dos irmãos e o amor possessivo de Halim por sua mulher são extremamente intensos.

O leitor chega ao final do livro com um sentimento de indefinição dos fatos, sem saber qual foi o verdadeiro desfecho daquela família, de sua história. E essa incerteza, tão bem elaborada por Hatoum, não frustra o leitor e sim o encanta ainda mais!

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Comentários
  1. Zilda
  2. fabio jardim

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