A Tempestade de Shakespeare – o poder, a comédia, o romance e o visionarismo

Encenada pela primeira vez em 1 de novembro de 1611, A Tempestade (The Tempest, no original) é considerada uma das últimas obras de William Shakespeare. De um visionarismo quase encantado, a peça é dividida em três núcleos de significação distinta (muito melhores que os núcleos das novelas das 8h), que fazem com que a genialidade de Shakespeare, indiscutível, aflore mais uma vez, ou talvez pela última.

O poder, a comédia e o romance são os três núcleos que citamos anteriormente. O visionarismo pode ser explicado por uma das leituras críticas da peça, que afirma e prova por A + B que Shakespeare premeditou em A Tempestade todo o sistema colonialista ainda em fase embrionária àquela época na Inglaterra.

A história de A Tempestade é sobre um duque de Milão, chamado Próspero, possuidor de uma biblioteca fenomenal onde aprende sobre a magia — ou necromancia, segundo sinopse da tradução de Barbara Heliodora, principal tradutora de Shakespeare para o português. Por dar atenção demais à sua biblioteca, Próspero é usurpado do ducado por seu irmão, Antônio, com a ajuda do rei de Nápoles, Alonso. Próspero e sua filha Miranda, ainda bem pequena, são jogados no mar e encontram uma ilha tropical como refúgio. Na ilha, vivem somente uma bruxa, que logo foi vencida pela magia de Próspero, e seu filho, um monstro chamado Calibã que se torna seu escravo e aprende seu idioma. Aí então começam as comparações com o sistema colonial que viria a se fortalecer nos séculos seguintes à peça.

O nobre chega à terra e encontra monstros. Esses monstros são domados e logo lhe sustentam com o que há de melhor em sua terra. Já podemos ouvir ao fundo “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas…”.

Essa luta pelo poder, ainda, retorna em um dos núcleos principais da peça. Durante uma viagem à África para ceder sua filha a um rei de lá, Alonso retorna à Nápoles junto de seu filho, o príncipe Fernando, Antônio (o usurpador), Sebastião (irmão de Alonso), e outras figuras da nobreza. Então, Próspero chama uma tempestade tão grande e cheia de significados no meio literário que se torna, com razão, o título da peça. O rei de Nápoles, seu irmão e Antônio vão parar naufragados em uma parte da ilha, juntamente com alguns nobres, sem Fernando, até então sumido. O usurpador Antônio, então, incita Sebastião a matar Alonso para tomar o reinado de Nápoles à moda de Milão, repetindo sua trajetória de poder até o ducado. Esse plano sombrio falha graças a Ariel, gênio aéreo a serviço de Próspero.

William Shakespeare

Ariel é também um dos personagens-chave de A Tempestade. Ele está por trás da tempestade que resulta o naufrágio de todos na ilha, e serve a Próspero perfeitamente, visando sua liberdade. É ele também quem faz com que Fernando, encantado por canções, chegue até Miranda, por quem se apaixona imediatamente e promete casamento. Próspero, em uma clássica psicologia reversa, submete-o a trabalhos dignos de Hércules afirmando que precisaria passar por isso para conseguir seu aval (apesar de tudo isso ser uma grande armação de Próspero para voltar à nobreza através do príncipe de Nápoles — uma peça dentro da peça literalmente). Muitas vezes esse romance é colocado em primeiro plano na interpretação da peça e, dependendo do capítulo, até Shakespeare leva para esse lado. Porém, existem muitos outros aspectos da peça que são tão geniais quanto.

Um deles é o núcleo cômico, responsável por algumas boas cenas e risadas na peça. Um dos personagens que naufragam também na ilha é o despenseiro Estefânio, responsável por salvar toda a bebida do navio e dar um porre em Trínculo, um bobo da corte, e em Calibã, o monstro metade peixe/metade homem “colonizado” (os presentes de grego dos colonos aos nativos. Explico-me melhor: era comum a conquista dos índios com objetos fantásticos até então desconhecidos por eles, como o espelho, por exemplo). Esses três personagens, bêbados, resolvem matar Próspero para se tornarem os senhores da ilha (luta pelo poder novamente: a ideia central da peça), e isso gera boas risadas somente por ler A Tempestade (infelizmente, ainda não assisti à peça, mas anseio por esse momento).

Esses são os três núcleos de significação distinta de A Tempestade de Shakespeare, que os utilizou alternadamente em cada cena. Cada um desses núcleos se conecta através da questão central, a luta pelo poder, mas, como esse seria um tema extremamente chato de ser abordado inteiramente na peça, Shakespeare tratou de adicionar ingredientes diversos e fez com que essa se tornasse uma de suas peças mais geniais. Ao final, o autor consegue juntar esses três núcleos em uma única cena e, em seu epílogo, em que Próspero consegue finalmente sua retomada do poder, o personagem perspicaz incorpora possivelmente a alma de seu criador, não menos perspicaz, e, utilizando uma metáfora brilhante, pede a indulgência — os aplausos — da platéia antes do último adeus.

A Tempestade
William Shakespeare
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Comentários
  1. Loami Queiroz
  2. karina

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