As três vozes de Cristóvão Tezza em O fotógrafo

Cristóvão Tezza, conhecido por seu denso e autobiográfico O filho eterno, deu voz a três personagens, em 2004, com o romance O fotógrafo, que está sendo relançado pela editora Record.

Apesar de o título do texto dar a entender que se trata apenas de um fotógrafo, o romance se constrói, na verdade, com a visão de três fotógrafos: o protagonista, o narrador e o próprio autor.

Cristovão Tezza

O protagonista do livro é um jornalista curitibano de 40 anos, que está insatisfeito com seu trabalho e sua vida afetiva, e vê tudo mudar com o surgimento de uma proposta de trabalho inesperada e diferente: fotografar uma jovem, a aturdida e bela Íris (nome sugestivo), a pedido de um homem misterioso. Ele aceita a proposta e, dividido entre o real e o imaginário, apenas se sente seguro quando amparado por sua companheira: a câmera.

Sempre anônimo, o fotógrafo de Tezza procura ficar à margem, fora da foto, tanto no aspecto profissional — ele é quase um desconhecido — quanto no amoroso. Para a esposa, ele é apenas uma sombra do que foi no passado. E ele mesmo faz um retrato pronto de seu casamento — “dois estranhos com uma filha no meio”. Como um fantasma, ele caminha pela cidade de Curitiba, imaginando acontecimentos, diálogos, cenas, personagens, inventando um mundo onde possa se encaixar. Se imagina ao lado de Íris, que acaba se tornando um “objeto” de desejo.

O segundo fotógrafo é o narrador do romance. É ele quem conduz a narrativa. Anônimo, como o protagonista, ele “fotografa” o próprio fotógrafo e todos ao seu redor, invadindo seus sentimentos e pensamentos, mergulhando em seus medos, desejos, trazendo à tona as imagens reprimidas em função das conveniências sociais. A partir do pensamento, da imaginação e da fala dos personagens, o romance vai tecendo pesquisas na área da filosofia, da política, da psicanálise e da literatura.

O Fotógrafo de Cristovão TezzaO terceiro fotógrafo é o próprio autor do romance, Cristóvão Tezza. E, se agora já não se trata de um personagem tão anônimo, como os dois primeiros, este último (ou primeiro, dependendo do ponto de vista) fotógrafo não perde, entretanto, sua posição de personagem quase invisível. Ao preferir uma escrita neutra, sem intromissões, na narrativa, da voz autoral — mais conhecida como a “mensagem” do texto —, o autor deixa como marca de sua passagem o nome na capa do livro.

Além das fotos apresentadas por seus três fotógrafos – a óbvia deterioração do casamento, a dificuldade do homem conservador em lidar com uma paixão extraconjugal e os problemas com sua profissão, Tezza também apresenta como num close, o retrato de uma Curitiba na primeira década do século XXI. Mostra a apreensão de um povo à espera de um novo presidente para sua pátria — a narrativa tem também como pano de fundo a corrida presidencial que elegeria Lula em 2002.

Lançado originalmente em 2004, pela editora Rocco, O fotógrafo ganhou os prêmios da Academia Brasileira de Letras e da Bravo! de melhor romance, além do 3º lugar do Prêmio Jabuti.

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