Balanço Geral da Flip 2012

A Flip 2012 teve recorde de público: 25 mil pessoas prestigiaram o evento em Paraty. O clima quente durante o dia na cidade da Costa Verde foi uma boa surpresa para quem estava acostumado a andar de sobretudo ao meio dia pelas ruas pedregosas. Porém, este ano, após algumas mudanças em relação ao formato e ao conteúdo do ano passado, nem todos saíram satisfeitos com a experiência na cidade histórica de Paraty. Vamos ao balanço geral da equipe do Literatura no Brasil:

  • A leitura de poemas de Drummond (homenageado deste ano) por outros autores no início de cada mesa, e a leitura do próprio Drummond, em áudio, foi um recurso interessante. Entretanto, a obra do autor não foi discutida a fundo, de maneira compreensível, na maioria das mesas. Daí, fazemos o link com o segundo tópico.
  • A conferência de abertura foi quase um desastre. O ensaísta, crítico, professor e escritor Silviano Santiago, autor de célebre obra sobre Graciliano Ramos, trouxe um texto que certamente será publicado como artigo e estudado na Academia. Na Academia, ressaltamos. O texto repleto de termos em francês e citações, lido em voz alta, não acrescentou em nada aos ouvintes, que pouco entenderam. Ressaltamos que, lido, o texto provavelmente acrescentará aos estudos drummondianos, mas aquele não era o momento de lê-lo. Em seguida, o poeta e professor Antonio Cícero fez uma análise de “A flor e a náusea”, um dos poemas mais conhecidos de Drummond. Isso salvou o desastre. O poeta leu com maestria o poema, comovendo o público, e sua análise foi perfeita: didática, fácil e completa. Academicamente, ótimo. Apesar disso, o público não estava muito afim de ver a Academia e suas complexidades, e a conferência de abertura não foi bem apreciada no geral.
  • Esse foi exatamente um dos pontos fracos da Flip 2012. O curador Miguel Conde tentou aproximar o público leitor e a Academia, mas trouxe para a Flip somente a parte ruim dela (falta de didática, textos complexos, assuntos pouco interessantes), sem demonstrar muito conhecimento. Explicamos. Na conferência, um bate-papo entre Silviano Santiago e Antonio Cícero sobre a obre de Drummond renderia infinitamente melhores frutos que uma conferência falada e falada e falada. Silviano Santiago seria muito melhor aproveitado em uma conferência sobre Graciliano Ramos, por exemplo. O mediador João Cezar de Castro Rocha, que participou, dentre outras, da mesa sobre família com Zuenir Ventura, seria melhor aproveitado na mesa 6 – O mundo de Shakespeare – com Shapiro e Greenblatt, mas isso realmente não tinha como o curador saber (somente saberia que já fez Literatura Comparada com o professor João Cezar, com foco em A Tempestade de Shakespeare, ou quem já leu o Lates do doutor que revelou na Flip ter lido Darwin na infância).
  • Não fizemos um texto sobre a mesa 9 – Encontro com Jonathan Franzen­ – por motivos óbvios. O autor norte-americano foi extremamente confuso e pouco compreensível em suas respostas. Com hiatos de reflexão sobre os assuntos das perguntas, o autor foi um dos mais criticados pelo público, que aguardava tanto por esse encontro com o best-seller autor de Liberdade e As Correções. Não gostaríamos de estar na pele do curador nesse momento e no momento que descreveremos a seguir.
  • O Nobel de literatura J. M. G. Le Clézio furou uma semana antes da Flip alegando problemas de saúde. Quem já havia comprado os ingressos poderia optar por restituição ou acompanhar Enrique Vila-Matas, que participara da mesa 2 com Alejandro Zambra, fazer uma conferência em seu lugar, com um texto seu, intitulado “Música para malogrados”. Ao final da conferência, muitas pessoas se arrependeram de não terem pedido a restituição do valor da mesa, que foi abandonada por dezenas de espectadores a partir da primeira meia hora. O texto de Vila-Matas era interessantíssimo, se lido, e não ouvido.

O curador Miguel Conde foi anunciado para dar continuidade à festa em 2013. Esperamos sinceramente que muito tenha sido aprendido com a edição de 2012. O homenageado de 2013, dizem por aí, será Graciliano Ramos, mas isso somente será confirmado em agosto. Será que Silviano Santiago será chamado para uma mesa que realmente some? Ficamos na expectativa que sim.

Quanto à Paraty em si, como chegamos na quarta-feira para cobrir o evento, temos algumas críticas que podem ser levadas em conta pela organização.

  • Como bem disse Roberto DaMatta, esperava-se 1h30 por um caldo nos restaurantes da cidade, isso quando se encontrava uma mesa vaga, ou quando o garçom resolvia lhe atender. Fazer refeições em Paraty foi realmente uma aventura nesses dias.
  • Um velho entrave da cidade se mantém: o custo é altíssimo, no entanto complexo. Alguns restaurantes e bares são caros porque são de grife, de altíssimo nível. Até aí, tudo bem. Não se vai ao Leblon desavisado. O problema é que ocorre uma especulação falsa: restaurantes e bares ruins (cozinha, atendimento, porções ínfimas) cobram, no embalo da cidade, preços altíssimos para o que servem. É preciso ver isso aí.
  • A livraria anexa à Flip aumentou de tamanho, dando aos clientes mais opções de compra. Um ponto positivo em relação ao ano passado. Que continue assim!

Ficamos então na expectativa para a próxima Flip. Até lá, você acompanha aqui, no Literatura no Brasil, o melhor conteúdo sobre literatura.

Veja a entrevista que fizemos com o antropólogo Roberto DaMatta durante a Flip 2012:

Comentário
  1. Pedro Cardoso

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