Debates sobre História marcam a segunda noite da Flip 2012

A promessa de uma  sabatina de temas polêmicos foi cumprida no segundo dia da Festa Literária de Paraty. A mesa  3 da Flip 2012, Ficção e História, trouxe para discussão um tema antigo, porém ainda sem um consenso. Afinal, podemos fazer ficção dos fatos históricos? Para o espanhol Javier Cercas, no livro Anatomia de um instante, não foi possível fazer isso. Segundo o autor, não seria possível escrever “uma ficcção sobre uma ficção”, pois a trama do livro, baseada no episódio emblemático da fracassada tentativa de golpe na Espanha em 1981, entrou para a história do país como um momento quase fantasioso já que a maioria da população não sabe ao certo o que aconteceu e tudo ficou imerso em suposições. Sabendo isso, Cercas percebeu que seria impossível tratar desse momento colocando mais elementos ficcionais numa situação que nem os historiadores haviam conseguido chegar a um acordo. Por isso, Cercas decidiu escrever a realidade num romance, ou seja, nada foi inventado, houve um trabalho de pesquisa histórica e de tentativa de reconstrução do episódio a ser narrado. Apesar de o colombiano Juan Gabriel Vásquez manter-se mais tradicional no seu romance histórico História Secreta de Costaguana, efetivamente escrevendo um romance baseado em fatos histórico e com elementos de ficção, ele e Cercas concordam que ambos possuem uma relação muito forte com um “passado que não passa”. Os dois escritores estão ligados a um passado mal resolvido e mal escrito de seus países e, talvez por isso, tenham resolvido se expressar em obras que evidenciam essa História. Além disso, Vásquez fez questão de diferenciar e ressaltar a verdade simbólica, metafórica, presente na literatura.

Para ele é necessário “fugir da tentação da realidade” pra poder recriá-la. É de extrema importância preservar aquilo de específico que faz um romance ser um romance, neste caso, esse diferencial seria, justamente, a ficção. O autor utilizou uma metáfora para analisar a literatura dizendo que ela é um fósforo na escuridão que não serve para enxergarmos melhor e sim para termos mais noção da dimensão da própria escuridão. Ou seja, a literatura não deve trazer respostas, pois o que interessa é o caminho percorrido.

Luiz Eduardo Soares e Fernando Gabeira

Luiz Eduardo Soares e Fernando Gabeira

Apesar do sucesso da mesa de Vásquez e Cercas, o último debate de quinta-feira, a mesa 4, veio para empolgar todos os presentes na Flip. Fernando Gabeira e Luiz Eduardo Soares chegaram para conversar sobre Autoritarismo, passado e presente. Como era esperado, o debate foi um sucesso completo, ambos são extremamente qualificados para tratar do tema proposto. Soares é antropólogo e escritor, tendo dedicado seus estudos sobre as questões da capital fluminense. Seu primeiro livro, Meu Casaco de General, narra sua experiência como Secretário de Segurança do Rio de Janeiro. No entanto, seu livro mais famoso é Elite da Tropa, no qual narra o cotidiano do Batalhão de Operações Especiais, o BOPE, a obra e sua continuação serviram de base para o roteiro dos filmes Tropa de Eilite 1 e 2, ambos de enorme sucesso nacional. Já Fernando Gabeira começou sua trajetória profissional como jornalista, porém ainda jovem iniciou sua carreira política. Engajado na luta armada durante o regime militar, em 1970, Gabeira ajudou a orquestrar o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick e por isso acabou preso e exilado até 1979. Seu livro O que é isso, companheiro? narra as memórias do período e faz um reflexão sobre os caminhos tomados e as ideologias da época. Gabeira trabalhou no Jornal do Brasil na época em que este veículo fazia forte crítica ao regime militar além de ter circulado nas principais redações brasileiras como a Folha de S. PauloO Estado de S. Paulo e Piauí. Como político ajudou a fundar o Partido Verde, se elegeu três vezes como deputado federal e ficou em segundo lugar nas eleições estaduais do Rio de Janeiro em 2010.Os palestrantes discutiram o autoritarismo velado que está presente em nossa sociedade, como nos casos de corrupção que não são resolvidos e a população simplesmente tem que se conformar. Gabeira concluiu que atualmente não há mais evidencias e sim versões, ou seja, se aceita qualquer explicação, por mais absurda que seja.

Tanto Soares quanto Gabeira entendem que a questão do autoritarismo no Brasil é oriunda de um processo histórico no qual as decisões para o povo foram tomadas “de cima para baixo”, ou seja, uma elite que se achava capacitada para pensar e decidir os rumos e vontades da população impondo aquilo que se supunha ser o melhor para todos.

Interrompidos inúmeras vezes por aplausos e gritos de entusiasmo, pois além de tratarem de abordar um panorama histórico, ambos acabaram por criticar a política no Brasil. Uma pergunta da plateia causou alvoroço: queriam saber porque não tinha um integrante do Partido dos Trabalhadores (PT) para se defender dos argumentos lançados pelos palestrantes. O que provavelmente a pessoa que enviou a pergunta não esperava era a resposta imediada de Gabeira: “o PT é secundário nessa discussão”, já que o importante ali era a questão da formação política do Brasil, e não a discussão sobre um partido específico. A Flip dá voz a todos, mas também direito de resposta.

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