Enrique Vila-Matas na Flip: duas vezes ainda foi pouco

Enrique Vila-Matas, ficou claro, é um escritor muito generoso. Aceitou, prontamente, substituir o escritor francês laureado com um Nobel J. M. G. Le Clézio, que, de última hora, declinou do convite para vir à Flip 2012 alegando problemas de saúde. Vila-Matas, portanto, ficou incumbido de, além de participar de sua mesa original na quinta-feira com Alejandro Zambra, apresentar sua conferência “Música para malogrados” no sábado.

Enrique Vila-Matas

Enrique Vila-Matas

Na primeira mesa da qual Vila-Matas participou nesta décima Flip, a mesa 2, o autor espanhol do premiadíssimo Bartleby e companhia não ofuscou o jovem Alejandro Zambra, ao contrário, fez o que pôde para exaltá-lo como um dos grandes nomes da literatura em língua castelhana contemporânea.

O autor espanhol fez a leitura de seu mais novo romance, Ar de Dylan, recentemente publicado pela Cosac Naify, e disse não saber explicar exatamente sobre o que é o livro, o que de fato parece ser sincero se considerarmos seus livros anteriores. Causou comoção e riso ao revelar que já foi convidado para uma conferência sobre o fracasso, cuja realização ocorreu na Suíça, à qual faltou. Agora, para março do ano que vem, está escalado para um simpósio sobre a ambiguidade. Afirmou, também, que “o importante não é copiar, mas conseguir originalidade a partir de outros”.

Em outro momento de homenagens na Flip, Vila-Matas recordou o escritor chileno Roberto Bolaño, seu amigo, que faleceu em 2003 em decorrência de um câncer.

Alejandro Zambra fez uma leitura breve de seu novo livro em português (o primeiro parágrafo) e espanhol, e comentou estar muito feliz com a bela edição brasileira de Bonsai, editado pela Cosac Naify. Disse que, ao escrever o livro, pensara em um livro-objeto, no qual a própria capa e sua encadernação passassem a ideia de um bonsai, de um livro em miniatura, de apreciação delicada.

Na mesa 14, última de sábado, Enrique Vila-Matas apresentou sua conferência “Música para malogrados”, na qual, bem à sua maneira, mesclou referências bibliográficas e profundas reflexões sobre a natureza da literatura e a vida de escritores. Iniciou sua fala homenageando o escritor Antonio Tabucchi, que já esteve em Paraty. Ao fim, utilizou prosa poética para dizer que é preciso escrever sempre, amanhã e depois de amanhã, e citou a cidade: “Escrever em Paraty, escrever em Barcelona.”

Faltou o prêmio Nobel, sim, isto é inegável. No entanto, não dá para afirmar que foi um fracasso retumbante. Vila-Matas, a seu modo, deu conta do recado falando sobre o que mais sabe: literatura. A velha e boa literatura enquanto a mais complexa forma de arte, evocando a importância da memória cultural no contemporâneo.

Enrique Vila-Matas nasceu em Barcelona em 1948. Estreou na ficção em 1973. Publicou 33 livros em mais de 30 países e tornou-se um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Com uma ficção metalinguística, capaz de costurar referências constantes à literatura e sua história, Vila-Matas revela-se um narrador talentoso e um observador bem humorado dos absurdos humanos. Ao mesmo tempo “escritor de escritores” e autor amado por um público amplo, recebeu os prêmios Rómulo Gallegos e Cidade de Barcelona por seu romance A viagem vertical (2001), ao passo que Bartleby & Companhia (2003) foi consagrado na França com o prêmio Médicis. Em seu novo livro, Ar de Dylan, lançado este ano no Brasil pela Cosac Naify, parte do enredo transcorre no Mercado Municipal de São Paulo.

Alejandro Zambra nasceu em Santiago, Chile, em 1975, e é professor de literatura na Universidade Diego Portales. Teve seu primeiro e premiado romance, Bonsai(2006), adaptado para o cinema pelo diretor chileno Cristián Jiménez, e foi eleito pela revista britânica Granta (2010) um dos 22 melhores escritores de língua espanhola com até 35 anos. É ainda autor de dois livros de poesia, Bahía inútil (1998) e Mudanza (2008). Depois do sucesso de Bonsai, lançou mais dois romances, La vida privada de lós árbores (2007) e Formas de volver a casa(2011). Publicado no Chile e em outros países, o livro Não leia(2010) traz ensaios e crônicas do escritor selecionados pelo editor Andrew Braithwaite.

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