Rita Elisa Seda, biógrafa de Cora Coralina, fala ao LB

Rita Elisa Seda

Rita Elisa Seda, jornalista, escritora e biógrafa de Cora Coralina, esteve na XV Bienal do Rio e falou conosco sobre o livro Cora Coralina – Raízes de Aninha (Editora Ideias e Letras, 472 páginas, R$ 51), que escreveu em parceria com o sociólogo Clóvis Carvalho Britto.

Rita Elisa pertence à UBE – União Brasileira de Escritores, à REBRA – Rede de Escritoras Brasileiras,  pertence à Academia Joseense de Letras – AJL e é uma das fundadoras da AVLA – Academia Valeparaibana de Letras e Artes. No bate-papo a escritora fala sobre o livro, a relação da poeta com Carlos Drummond de Andrade, sobre o museu Casa de Cora Coralina e a recepção da obra de Cora.

Como o livro surgiu e por quê?

O Clóvis trabalhou no museu Casa de Cora Coralina durante 15 anos, e eu guardo desde 1982 tudo que acho sobre a Cora. Então nós unimos nossas pesquisas e pelo museu Casa de Cora Coralina, em razão da comemoração de 120 anos da autora, nós fizemos o livro.

Como foi o processo de escrita do livro? Vocês escreveram esboços durante a pesquisa ou redigiram o livro só depois dos dados, depoimentos e do material reunidos?

Nós fomos alinhavando. Resolvemos dividir assim: como o Clóvis conhecia muito bem o estado de Goiás e de Brasília ele ficou com essa região, até para se aprofundar mais nas pesquisas, tanto que ele encontrou muito material inédito sobre a obra de Cora. E eu fiquei com o estado de São Paulo, porque ela viveu lá mais de 40 anos, nas cidades de Joboticabal, Penápolis, Andradina e a própria cidade de São Paulo.

Cora Coralina é bastante conhecida por ter começado a escrever muito tarde. De acordo com a sua pesquisa, trata-se de uma informação verídica ou é um daqueles mitos que cercam escritores?

Esse livro vem justamente pra quebrar esses paradigmas. Nós acabamos descobrindo publicações de Cora quando ela tinha apenas 16 anos, em 1905. Ela já assinava Cora Coralina e a primeira publicação dela foi aqui no Rio de Janeiro, no jornal Tribuna Espírita. Ela fez uma crônica e foi publicada. Então além desse mito, como você disse, vários paradigmas de estudo sobre a biografia de Cora foram quebrados com o livro, e por isso ele é um marco.

Interessante, porque o que se sabe é que a família impôs proibições sobre a escrita e a publicação de Cora Coralina.

Isso é um mito porque o Cantídio, marido de Cora, que dizem ter proibido ou inibido a vocação literária dela, era redator-chefe do jornal em que ela publicava em Jaboticabal. Então como ele poderia podá-la de escrever? Primeiro que ela não aceitaria, depois há documentação provando o contrário do senso comum.

Cora também trocava muitas cartas, e ficou muito amiga de Carlos Drummond de Andrade, que foi quem a ajudou em termos de publicação, apresentando a poesia dela. Como era essa relação?

É verdade. E até é por isso que existe esse mito que estávamos discutindo anteriormente. Quando Drummond despontou Cora no cenário literário nacional ela já tinha uma certa idade, então foi por isso que ficou enfatizado que Cora começou a escrever com mais de 70 anos. Ele faz uma crítica sobre o livro dela Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, de 1965, e a partir daí eles começam a trocar correspondências, mantendo essa relação durante muito tempo. Ela tinha um amor fraternal por ele e dizia que Drummond encontrou no rio Vermelho um diamante e o lapidou, porque foi ele que a apresentou para todo o mercado nacional.

Os arquivos dela e sobre ela estão guardados onde? Existe alguma fundação, algum instituto, coleção particular ou museu cuidando desse acervo?

Os arquivos estão no museu Casa de Cora Coralina, na Cidade de Goiás. Contém o acervo doado pela família, pode ser visitado e manuseado. Lá vocês encontram muitas informações sobre a vida não só de uma Cora poeta, mas também política, candidata à vereadora pela UDN, uma Cora ambientalista, uma Cora que foi comerciante, porque ela tinha a Casa de Retalhos e da Cora religiosa, que foi da Ordem Terceira de São Francisco. E tem um acervo vastíssimo com a filha de Cora, Vicência Bretas, que é muito bonito.

Como você espera, daqui para frente, a difusão da obra dela comercialmente e até em termos acadêmicos, como pesquisas, teses etc.?

A Cora tinha um mote de sua vida e obra que era procurar viver a frente do seu tempo. Em seu primeiro livro ela disse que escrevia para as gerações vindouras, para aquelas que ainda iam chegar. E eu acho que chegou a hora. Eu convido a todos para que leiam Cora Coralina.

 

Veja também a entrevista do Literatura no Brasil com Thalita Rebouças, escritora infanto-juvenil.

Comentários
  1. Rita Elisa Seda
  2. Maria Neta

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