Flip 2012 começa afastando público não-especializado

A Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que este ano homenageia Carlos Drummond de Andrade, que completaria 110 anos se vivo, começou com alguns tropeços. Inconvenientes tropeços.

Luis Fernando Verissimo na Flip 2012

Para a mesa de abertura, intitulada “Flip ano 10, Drummond110”, o evento contou com a presença sempre muito espirituosa e terna do escritor Luis Fernando Verissimo, que leu um texto divertidíssimo sobre sua primeira experiência na festa, em que confundiu Flip com “clip”. Aproveitou para, entre comemorações e lembranças, humor e terror (de plateias), divertir o público com um texto que, caso fosse lido anonimamente, todos poderiam dizer: “é do Verissimo”.

Em seguida, o professor de literatura Silviano Santiago leu um texto que mais parecia um artigo acadêmico recém-saído das páginas de uma revista de pós-graduação. Boa parte da plateia parecia atônita, perdida em meio a termos e conceitos herméticos que mais distanciam do que aproximam a poesia de seus leitores não-especializados. Frases em um francês bem falado surgiam do texto mais como evidência de pedantismo do que como o mais profundo e despretensioso saber, a exemplo do genial e humilde Antonio Candido, convidado da mesa de abertura da Flip passada.

Já Antonio Cicero, o terceiro da noite a proferir conferência (nome mais apropriado ao que aconteceu na primeira noite do evento), fez um exercício didático e muito bem articulado ao ler, com exímia atenção e critério, o famoso poema drummondiano A flor e a náusea. Cicero lembrou que a flor que nasce do asfalto é o próprio poema que está sendo escrito, publicado em uma época de impossibilidade poética, 1945, no livro A rosa do povo. Enquanto o crítico e poeta lia as partes do poema com sua voz marcante, que em muito lembra as declamações memoráveis de Paulo Autran, analisava verso a verso o poema, se utilizando de conceitos da teoria literária. Menos pedante, mas não menos acadêmico, portanto.

Luis Fernando Verissimo, escritor multifacetado, é cronista, romancista, dramaturgo e cartunista. Publicou obras célebres como Comédias da vida privada, Os espiões e o já clássico Comédias para se ler na escola. Escreve semanalmente para alguns dos mais importantes jornais do país, nos quais versa sobre política e a vida cotidiana, entre outros assuntos.

Silviano Santiago, crítico, acadêmico e ficcionista publicou, entre outros, o antológico romance Em liberdade, no qual teceu críticas duras à censura, em pleno vigor da ditadura militar que ainda grassava no Brasil no início dos anos 1980.

Antonio Cicero, poeta, filósofo e letrista de algumas das canções mais celebradas da Música Popular Brasileira, é autor do livro de poemas Guardar, de 1996, e a obra filosófica Finalidade sem fim, de 2005.

Comentário
  1. André Carneiro Ramos

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