Francisco Buarque de Hollanda, o nosso Chico

Chico BuarqueChico Buarque já é nome consagrado na música, desde os anos 60 compõe verdadeiras obras primas, seja pela crítica política ou pela genialidade musical. No entanto, sua carreira como escritor, apesar de também ter sido iniciada nos anos 60, nem sempre é tão valorizada; suas primeiras crônicas foram publicadas já em 1961 pelo jornal colegial que ele mesmo batizou de Verbâmidas. Apesar de sonhar em ter seus textos publicados pelos grandes jornais, sua primeira aparição em um periódico foi através de uma manchete do Última Hora, de São Paulo: “Pivetes furtaram um carro: presos”, Chico e um amigo apareceram com os olhos cobertos por uma tarja preta, eles haviam “puxado” um carro para dar umas voltas durante a noite paulista, brincadeira comum para a época, que acabou na cadeia e com a condenação dos amigos que só poderiam sair a noite desacompanhados depois dos 18 anos. Entretanto, em 1966 publica em O Estado de S.Paulo o conto Ulisses, incorporado depois no primeiro livro chamado A Banda que trazia os manuscritos das primeiras canções.

Com o amadurecimento veio também uma literatura mais “séria” e engajada – em 1967, acompanhando as canções políticas que fazia na época, Chico escreve a peça Roda-Viva que estrearia nos palcos em 1968, com a direção de José Celso Martinez Corrêa, além de ter Marieta Severo, Heleno Pests e Antônio Pedro no elenco. A peça se tornou um marco na luta contra a ditadura, e na segunda temporada, já com Marília Pêra e Rodrigo Santiago nos papeis principais, um grupo do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o teatro Galpão, em São Paulo, em julho daquele ano, espancou artistas e depredou o cenário. No dia seguinte, Chico estava na platéia para apoiar o grupo e começava um movimento organizado em defesa de Roda-Viva e contra a censura nos palcos brasileiros. Continuando sua inserção pelo mundo do teatro em 1973 ele escreve, com Ruy Guerra, a peça Calabar, ou o elogio da traição, cuja ação se passa no Brasil colonial, na qual é relativizada a posição de Domingos Fernandes Calabar que preferiu o invasor holandês ao colonizador português. Também proibida pela censura, a peça só foi liberada muito anos depois.

Já em 1974, Chico lança a novela agrária Fazenda Modelo, mas é em 1975 que Chico Buarque escreve, com Paulo Pontes, a famosa e impactante Gota d’água; uma tragédia carioca, baseada na adaptação que Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, havia feito para a televisão da releitura de Medéia, de Eurípedes. A peça se tornou um dos maiores sucessos de crítica e público. Por essa peça o autor ganhou o Prêmio Molière como melhor autor teatral, mas em protesto contra a censura, que proibira peças de vários autores, ele não compareceu à cerimônia de entrega dos prêmios.

Apesar de ainda estar engajado na luta contra a censura e a ditadura, Chico, em 1977, traduz e adapta Os Saltimbancos, além de escrever o texto e compor as canções da peça Ópera do malandro, dirigida por Luis Antônio Martinez Corrêa, que estreou em 1978. No ano seguinte, o autor lançou o primeiro livro infantil de sua autoria, Chapeuzinho Amarelo, ilustrado por Donatella Berlendis. Além disso, a peça Calabar, finalmente, é liberada pela censura e estréia em São Paulo em 1980.

Além disso, participa, juntamente com Sérgio Bardotti, Antônio Pedro e Teresa Trautman, do roteiro de uma produção milionária: o filme Saltimbancos trapalhões, estrelado pelos Trapalhões em 1981. Neste mesmo ano, após 17 anos na gaveta, o livro A bordo do Rui Barbosa, poema escrito entre 1963 e 1964, é publicado com ilustrações do amigo Valandro Keating. Ainda nos anos 80 realiza com o cineasta Miguel Faria Jr., a adaptação e roteiro do filme Para viver um grande amor.

Apesar de escrever belíssimas peças, Chico demora a assumir um lado totalmente literário, afinal a música sempre foi personagem importante em suas obras dramáticas. Só nos anos 90 vemos surgir um novo Chico, o romancista. O autor, apesar de nunca abandonar o ritmo, passa a alternar música e literatura e lança, em 1991, Estorvo. Publicado pela Companhia das Letras, com o qual ganha o Prêmio Jabuti de Literatura, os direitos de publicação de Estorvo são rapidamente vendidos para sete países: França, Itália, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Estados Unidos e Portugal. Neste último, a venda atingiu 7.500 exemplares em apenas três dias, surpreendendo a Editora Dom Quixote.

EstorvoBenjaminBudapesteLeite Derramado

Depois do romance de estreia parece que Chico tomou gosto pelo gênero e escreveu na sequência Benjamim, que, lançado em 1995, recebeu críticas desfavoráveis de parte da crítica literária, apesar do sucesso de vendas e dos elogios de grandes nomes da literatura. Passados alguns anos, já em 2003 a Cia. das Letras publica Budapeste, seu terceiro romance que ganha o Prêmio Jabuti de melhor livro do ano, ficando na lista de mais vendidos por diversos meses, além de ter sido traduzido para mais de seis idiomas.

Recentemente, em 2009, Chico lançou seu quarto romance: Leite derramado, e novamente o romance de Chico foi escolhido o livro do ano pelo Prêmio Jabuti, o que gerou muita discussão no meio literário, já que houve questionamentos quanto ao merecimento do prêmio, pois a escolha do Livro do Ano se dá por decisão de empresários do setor literário, ao contrário das outras categorias, que são escolhidas por especialistas. Isso, segundo a Editora Record, faria com que pessoas com mais penetração na mídia (como Chico) teriam mais chances de vencer. Polêmicas a parte, Chico Buarque não pode ser ignorado ou diminuído como autor literário, pois assim como na sua produção musical, a literatura produzida por ele traduz em palavras os sentimentos, delicadezas e belezas que só um gênio pode perceber.

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