O remorso de baltazar serapião de valter hugo mãe

O romance o remorso de baltazar serapião (2006) de valter hugo mãe tem todos os méritos de ter ganhado o Prêmio Saramago de 2007. O enredo, triste e denso, alegoriza a relação entre homem e mulher com requintes de genialidade desse autor angolano/português que está a encantar o Brasil nos últimos tempos.

Conheci valter hugo mãe na Flip 2011, e logo tive vergonha de nunca ter estudado um pouco mais sobre o autor. Já tinha ouvido falar por alto, talvez pela peculiaridade de seu nome ser grafado em minúsculas, mas nunca tinha dado a devida importância. Porém, na Flip, o autor se fez a revelação do evento, discursando sobre a literatura de uma forma que poucos autores mais aguardados conseguiram fazer.

Sua escrita em minúsculas, como explica o autor, é somente para fazer a linguagem fluir, dando impressão de oralidade, e em muito lembra o alvoroço que é ler os livros de José Saramago, que chamou valter de “tsunami” literária em 2007. Porém, hugo mãe explica que essa característica irá acabar em seu próximo livro, após a tetralogia já lançada, e todos o terão como um escritor mais normal.

O Remorso de Baltazar Serapião de valter hugo mãeO livro o remorso de baltazar serapião, de 2006, é o segundo livro dessa tetralogia, que conta ainda com o nosso reino, de 2004; o apocalipse dos trabalhadores, de 2008; e a máquina de fazer espanhóis, de 2010 (este último lançado na Flip, pela editora Cosac Naify). Essa tetralogia visou completar o ciclo de vida humana, utilizando personagens de 8, 19, 40 e 84, respectivamente à ordem com que os livros foram lançados.

valter hugo mãe conseguiu, com o remorso, criar uma Idade Média não muito definida historicamente, com um vilarejo indefinido geograficamente, regido por um Dom que, além de dono das terras, era dono dos corpos e almas de moradores pobres e miseráveis. Um desses moradores, Baltazar Serapião, dos sargas, família acusada de se cruzar com vaca, é o protagonista. Um jovem trabalhador que sonha em se casar (e se casa) com Ermesinda, a jovem mais bela e pura do vilarejo.

O primeiro personagem que causa estranhamento, já nos primeiros parágrafos do romance, é a sarga, a vaca de estimação da família, que se mostra ao longo do romance um dos personagens mais importantes da trama. Participam ainda do enredo o pai de Baltazar, o irmão mais novo, a mãe, que sofre agressões constantes do pai por motivos irracionais, Dom Afonso, que obriga Ermesinda a visitá-lo diariamente, logo após o casamento da jovem com Baltazar, Dona Catarina, esposa de D. Afonso, e uma bruxa.

Essa combinação constrói uma história muito, mas muito pesada. Demorei para ler o livro de tanta angústia que as cenas narradas pelo narrador em primeira pessoa, Baltazar, transpassava. valter hugo mãe se utiliza de uma característica de Machado de Assis, em Dom Casmurro, para demonstrar o ciúme de Baltazar sobre sua Ermesinda. Nada é confirmado por ninguém porque, como a história é narrada pelo próprio personagem, não temos a visão de outros personagens sobre o fato.

E o desenrolar da história é de tirar o fôlego. Mesmo parecendo psicológico demais em alguns momentos, mistura-se realidade à magia, consciência à inconsciência, violência ao amor. Um final triste e sublime é o último suspiro para um leitor estremecido desse romance que, como poucos, soube refletir sobre a condição da mulher na sociedade, vista como inferior ainda nos tempos atuais, de forma tão catártica a ponto de sentirmos o remorso de baltazar serapião a cada parágrafo contado.

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