Resumo da Flip – mesa 4, O humano além do humano

A mesa 4 da Flip, intitulada “O humano além do humano”,  estava prevista para falar sobre as relações entre o projeto iluminista de domínio da natureza, a ciência e seus dilemas éticos.  Um tema que tinha tudo para ficar no âmbito das elucubrações acadêmicas mais complicadas, porém não foi isso que aconteceu. Provavelmente, esta mesa será lembrada como um dos pontos mais altos da edição de 2011 da Flip.

Miguel Nicolelis é neurocientista e forte candidato para o Prêmio Nobel, o que seria um orgulho para o Brasil e, mais especificamente, para a torcida palmeirense. Seu trabalho com próteses neurais integra a lista das 10 tecnologias que irão transformar o mundo, segundo a universidade americana MIT. O autor está lançando na Flip o livro Muito além do nosso eu, que já está entre os mais vendidos da livraria oficial do evento.

Nicolelis começa em pé, o que é absolutamente inusitado na Flip. Toma seu laser para apontar imagens que eram exibidas no telão, de maneira a ser o mais didático possível com um público leigo em neurociência. O tema central são os limites e os devaneios do cérebro. O autor expõe a tempestade cerebral de fato, por meio de imagens e de um ruído contínuo que, segundo seu filho, parece como “fazer pipoca ouvindo uma rádio AM sem sintonia.” Um robô humanoide em Kyoto, no Japão, consegue caminhar a partir de sinais de um primata nos EUA, apenas através de transmissão de ondas cerebrais.

Em resposta à uma pergunta feita pelo mediador, o cientista falou que a palavra “milagre”, se não tivesse sido utilizada pelo ramo de negócio que é utilizada hoje, seria muito bem aproveitada na neurociência, visto que eles fazem “até uns negócios melhores hoje”.

Nicolelis comentou que seu sonho é que em 2014 uma criança tetraplégica possa guiar a seleção brasileira até o campo, marcando, assim, o grande gol da ciência brasileira no mundo. Este é um sonho possível, diz ele, baseando-se em suas pesquisas sobre a ação do cérebro sobre os movimentos do corpo.

Para o neurocientista, o cérebro, grande escultor da realidade, e assim ele resume sua apresentação.

Pondé

O polêmico filósofo recifense Luiz Felipe Pondé teve ótimas tiradas para caracterizar o humano. Na Flip, Pondé lança o livro Para entender o catolicismo hoje.

Ele iniciou seu discurso contando sobre como largou a medicina para fazer filosofia: perguntou ao professor “o que a pessoa sente à beira da morte ao ver que está indo para o nada”. O professor, então, afirmou que Pondé estava na aula errada, pois deveria estar em Filosofia.

Seu discurso gira em torno das relações entre religião e ciência, e declarou que é ateu convicto, assim como seu companheiro de mesa Nicolelis.

Para Pondé, o tema da mesa explica-se assim: muito além do humano é o humano construído política e socialmente. Princípio ou consequência de regimes autoritários. O autor quebrou um tabu e falou sobre a eugenia, conceito de Platão deformado ao longo do tempo, principalmente durante o nazismo. Segundo ele, a ideia de superar os limites, eugenia, está escrita no pensamento filosófico ocidental, e não é apenas uma ideia do Terceiro Reich que radicaliza esse princípio chegando a eliminar aqueles considerados incapazes de alcançar a perfeição. Pondé nos chama atenção para a hipocrisia de acharmos que a eugenia é morta, na realidade, nunca se tentou com tanto afinco superar os limites do humano.

Sem poder terminar seu raciocínio por conta do tempo, Pondé é aplaudido por uma plateia que ficou com gostinho de quero mais.

Algumas frases importantes da mesa 4 da Flip:

Nicolelis:

– “Santos Dumont disse para a mãe que queria voar. Então, fez algo raro em nossa cultura: ele prometeu e cumpriu.”

– “Dizer que as máquinas vão ter consciência é uma forma de charlatanismo científico.”

– Alfinetando o companheiro de mesa, Nicolelis afirmou: “Se Santos Dumont fosse para a escola, não teria voado. Ele teria feito vestibular para filosofia.”

Pondé:

– “O ser humano mata porque gosta.”

– “O ser humano não sabe o que está fazendo e não deve acreditar em Deus. Ambas as coisas são inseguras.”

– “Quando você acha que Dostoiévski  está errado, é você que está errado.”

– “O humanismo é um fracasso. A eugenia está inscrita no projeto científico, na história da civilização. Somos todos eugenistas.”

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