Resumo da Flip – mesa 6, Pontos de Fuga

A mesa 6 da Flip 2011 pode ser lembrada como a consagração de valter hugo mãe no cenário nacional.

valter hugo mãe, o homem das minúsculas, elogiado por José Saramago, senta-se na Tenda dos Autores um pouco tímido, talvez assustado por haver tanta gente para ouvi-lo. Ao seu lado, Pola Oloixarac senta-se e cruza suas visadas pernas e põe-se a esperar a apresentação (a autora é considerada a musa da Flip deste ano). Vocês querem saber: sim, ela é linda. Pena que apenas linda. O rosto de Penélope Cruz, o discurso conturbado de Amy Winehouse.

O angolano valter hugo mãe nasceu em 1971, é escritor, editor, artista plástico e músico. José Saramago o definiu como um tsunami literário, depois que seu romance remorso de baltazar serapião ganhou em 2007 o prêmio que leva o nome do Nobel português. Além desse título, seu primeiro romance publicado no Brasil, valter hugo mãe lança na Flip A máquina de fazer espanhóis, considerado o grande acontecimento literário português em 2010.

valter hugo mãe

O mestre de cerimônias pede que Pola Oloixarac leia um trecho de seu livro As teorias Selvagens, mas a autora não possuía o livro em mãos, no palco. Rapidamente isso se tornou uma inquietação, mas a plateia respondeu à saia justa com aplausos. Possivelmente isso salvou os componentes na mesa. Em poucos minutos, alguém subiu ao palco e trouxe o trecho em castelhano, e Pola pôde enfim ler seu trecho extremamente polêmico, entremeando punhetas, tecnologia, uma narrativa selvagem, poeticamente caótica.

“Quando escrevi meu romance eu queria abrir um diálogo com o contemporâneo, com o político e com a imaginação que combate politicamente.” e “Literatura é uma ferramenta, um instrumento para o conhecimento.”, disse Pola.

valter hugo mãe lê um trecho belíssimo de seu último livro, chamado A máquina de fazer espanhóis, arrancando aplausos calorosos da plateia que lotava a Tenda dos Autores. Ficou claro, com a leitura, que hugo mãe é um autor que conhece profundamente a língua, a última flor do Lácio. Ele foi extremamente bem humorado. Conquistou a plateia facilmente e teve sucesso em apresentar sua obra, sua intenção, em expor sua própria teoria literária.

Algumas frases marcantes de valter hugo mãe:

– “Não creio que sou um James Bond suficientemente interessante para um livro, preciso falar sobre outras coisas.”

– “Interessa-me saber que não morrerei até setembro.”

– “Os poetas é que estão certos, os poetas é que descobrem primeiro.”

– “Os meus livros não são autobiográficos na partida, mas são, em certa medida, na chegada; sou muito mais velho do que pareço.” – diz hugo mãe, referindo-se ao seu personagem de oitenta e quatro anos.

Pola Oloixarac

Pola, ao contrário de hugo mãe, pareceu perdida, com uma profunda dificuldade de organizar ideias, inclusive expressando ideias rasas, lugares comuns de literatura. Fazia pausas na fala que deixavam a plateia atônita, insatisfeita mesmo. Dada a expectativa que havia se criado em torno dela e de sua vinda a Paraty, o resultado foi um tanto constrangedor, foi a imagem de uma escritora amadora que, por viver em meio a um caos mental, não consegue juntar as peças de seu pensamento. Resultado: valter hugo mãe saiu da Tenda consagrado, e Pola a deixar muita dúvida no ar sobre seu talento.

Antes de finalizar a mesa, valter hugo mãe leu a carta que fez para mostrar sua admiração pelo Brasil e arrancou lágrimas dos espectadores, que o ouviam e assistiam sem pestanejar:

“Quando eu tinha 8 anos veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. Ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. Foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. Eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. O meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. A ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. Eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.

Depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. Naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao Brasil, e todos queriam saber avidamente quem casava com quem na Gabriela.

A senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. Por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.

A minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. Passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. Ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.

As moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. As minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, fazia vénia e sorriam. Havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. Elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.

Um dia a minha imã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. Na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. Não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. Um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. Ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. Entendi que as brasileiras eram como um toque de Midas que me transformava num menino de ouro.

Aos dezoito, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do Brasil e ingressou na minha escola. Eu instintivamente corri atrás dele. Queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. Ele mostrou-me Titãs e Legião Urbana. Eu achava que o Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do Tempo perdido. Quando o Renato Russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o Tempo perdido. Eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.

O Alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. Adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. Nesse tempo, o Alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. Porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.

Hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. Eu, não. Fiquei para tio a escrever romances, e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. Sonhei sempre em vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido. Pois aqui estou, a Flip fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso.”

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*