Resumo da Flip – mesa 7, Laços de família

Com o húngaro Péter Esterházy e com o francês Emmanuel Carrére, as memórias familiares e as vivências pessoais derivam em narrativas que transcendem o registro confessional, diluem as etiquetas da prosa autobiográfica ou da autoficção, e convivem com realizações estritamente ficcionais, mostrando a inesgotável capacidade de renovação da linguagem romanesca.

Emmanuel Carrère nasceu em Paris, em 1957. Formado no Institut d’Etudes Politiques, é escritor, roteirista e diretor. Várias de suas obras foram adaptadas para o cinema, e a versão de O bigode (2002) foi dirigida pelo próprio autor. Entre os livros de Carrère publicados no Brasil estão O adversário (2007), Um romance russo (2008) e Outras vidas que não a minha (2010) – que partem de episódios reais (da vida pública, de sua história familiar e de sua vivência pessoal) para compor romances que estendem os limites de um gênero normalmente associado à pura ficção.

Peter Estérhazy

Péter Esterházy é considerado um dos autores europeus mais importantes da atualidade. Nascido em Budapeste, em 1950, descende da aristocracia húngara e é matemático de formação. Autor de mais de trinta livros, o húngaro já ganhou mais de vinte prêmios literários, entre os quais o prestigiado Kossuth, em 1996, e o Prêmio da Paz da Associação dos Livreiros Alemães da Feira de Frankfurt, em 2004. Tem publicada no Brasil apenas uma obra: Uma mulher, retrato original e bem-humorado dos relacionamentos. Na Flip, o autor lançou Os verbos auxiliares do coração.

Esterházy iniciou a mesa lendo um trecho de seu último romance. A sensação era de estar dentro da Budapeste de Chico Buarque, porque o húngaro deve ser a única língua que o diabo respeita. Em seguida, Emmanuel Carrère leu um trecho seu em francês, e a coisa pareceu mais familiar, porém tampouco inteligível. Tradução simultânea é realmente ótimo.

O mediador deixou claro, logo no início, que se trata de dois casos de autores cujas biografias têm relação íntima com suas obras. A revolução russa, o regime comunista húngaro, duas famílias que perderam tudo em decorrência de fatos da política.

Emmanuel Carrère demonstra o quanto a Segunda Guerra Mundial é um problema tipicamente europeu, por ter legado para as gerações futuras problemas de ordem pessoal, familiar, do próprio cotidiano, sobretudo para os países ou ocupados durante a guerra, como para os que foram posteriormente ocupados ou governados por regimes ditatoriais.

Péter comenta, logo no início, sobre o problema do húngaro e de sua tradução no Brasil. Afirma que não poderá dizer exatamente o que pensa falando alemão. Prossegue dessa premissa e fala sobre a relação que existe entre sua literatura, a sua família descendente da aristocracia húngara, sobre seu pai e a própria história de seu país.

O mediador pediu para que Péter contasse o segredo que envolvia o seu segundo livro, cujo enredo tinha muito a ver com o pai do autor. Ele então contou que quando acabou o romance, no dia 12 de junho de 2000, havia sido criado um Instituto de Memória húngara, que envolvia a abertura de arquivos da ditadura comunista. Como era um autor já consagrado, pediu ao instituto que lhe enviasse quaisquer documentos que estivessem envolvidos com ele. Achou estranho, no entanto, que, após a pesquisa, o próprio diretor do instituto ligara e pedira para que o escritor fosse até seu escritório. Lá, o diretor pediu para que Péter se sentasse e então lhe entregou alguns poucos documentos. Quando Péter os abriu, reconheceu de pronto a caligrafia singular de seu próprio pai. Fora o pai do escritor que o investigara e escrevera relatórios sobre sua vida para a ditadura húngara. Foi realmente emocionante, um momento inesquecível da Flip mesmo, ouvir isso, ao vivo.

De maneira geral, podemos considerar que ambos autores são contidos quando falam, levemente tímidos, embora Carrère seja mais solto que Péter. Experiências pessoais, a escritura em primeira pessoa, a realidade e a ficção, a autobiografia e a não-ficção e a escrita de si marcaram esta mesa, que demonstrou a importância desses escritores que trazem à superfície as tramas húngaras e francesas que correm por debaixo da mesa.

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