Resumo da Flip – mesa 9, entenda o imbróglio de Claude Lanzmann

O escritor e cineasta francês Claude Lanzmann nasceu em 1925 e ficou conhecido mundialmente pelo filme Shoah, de 1985: documentário com mais de nove horas de duração com entrevistas com sobreviventes e agentes dos campos de extermínio nazistas. Veio à Flip 2011 para o lançamento do livro de memórias A lebre da Patagônia, no qual conta sobre seu papel na resistência francesa à ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, os bastidores da Shoah, sua vida amorosa com Simone de Beauvoir e a participação na revista Les Temps Modernes.

De acordo com o guia distribuído gratuitamente pelos organizadores da Flip, a mesa 9, intitulada A ética da representação, era definida assim: “Em mais de nove horas com testemunhos de sobreviventes judeus dos campos de extermínios nazistas, o documentário Shoah, de Claude Lanzmann, problematizou a ética da representação do horror ao dar voz às vítimas da catástrofe. Por trás disso está o pensamento do diretor e intelectual francês, que lança na Flip o livro A lebre da Patagônia, em que relembra suas relações com Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre.

No dia anterior ao da mesa, Lanzmann participou de uma entrevista coletiva na própria pousada onde estava hospedado e causou um enorme desconforto entre os jornalistas. Segundo o blog da jornalista Raquel Cozer, que estava cobrindo o evento para o jornal O Estado de S. Paulo, o diretor irritou-se logo de cara pelos jornalistas não dominarem o francês. – alguém poderia avisá-lo que muitos jornalistas brasileiros não dominam nem o português, mas que temos uma das melhores turmas de jornalistas do mundo. E de mais a mais, é ele que estava no Brasil. – prossigamos. Logo depois, Lanzmann afirmou: “o clima de Paraty está acabando com a minha vida” e continuou com outras pérolas ao longo da coletiva: “Essa festa literária deveria ser feita no verão. A primeira coisa que quero saber é se há algum cemitério bastante atraente aqui em Paraty. Estou lutando para salvar a minha vida.”. Em algum momento da entrevista, um jornalista tentou uma comparação com o clima da Inglaterra, ao que Lanzmann respondeu de pronto: “Lá não é tão úmido nem tão lúgubre. Não quero atacar o Brasil, mas tenho que dizer que estou exalando meus últimos suspiros aqui. Para conseguir falar com vocês, tive que tomar um uísque.”. E, também, perguntou de maneira brusca quem havia lido seu livro (ele estava obcecado por isso durante o evento).

O cineasta e escritor francês Claude Lanzmann

O cineasta e escritor francês Claude Lanzmann

Durante a mesa, que começou exatamente no horário marcado, 19:30, o diretor francês mostrou-se muito incomodado com a situação em que se encontrava desde o início. De fato parecia não querer estar ali. O mediador era o professor Márcio Selligmann-Silva, professor da Unicamp, intelectual fluente em francês e alemão, e especialista em literatura de testemunho. Ou seja, seria impossível um nome mais ideal para mediar esta mesa. Tinha tudo para dar certo, mas deu errado. E daria de qualquer forma.

O francês fez comentários desnecessários durante toda a palestra, deixou a plateia desconcertada por vários momentos e se mostrou um tanto incomodado e impaciente com os comentários de Márcio Selligmann-Silva, retrucando com coisas do tipo “eu irei embora se não falarmos sobre o meu livro”.

Certamente foi um momento que Liz Calder, idealizadora e presidente da Flip, não imaginou quando, há nove anos, criou o evento.

Para piorar a situação que já era muito, mas muito desconfortável, o curador da Flip deste ano Manuel da Costa Pinto disse na entrevista coletiva, que fazia um balanço do evento, que Claude Lanzmann teve “uma atitude nazista”, único adjetivo que não deveria utilizar. Muito lúcido, Sérgio Rodrigues, jornalista de cultura da revista Veja, disse em seu blog que o curador da Flip deveria fazer jus à história do evento e ter escolhido adjetivos melhores para desqualificar o diretor: “deselegante, arrogante, prepotente, desagradável, descortês, indelicado, grosseiro, ofensivo, rude, desrespeitoso, mal-educado, intratável, truculento, tirânico. Com um pouco de ironia, quem sabe até funcionasse uma fórmula politicamente incorreta como “profundamente francês”. Resultado: Luiz Shwarcz, editor de Lanzmann e dono da Companhia das Letras, repudiou o curador. Por isso que às vezes temos que admitir: literatura parece futebol. Manuel da Costa Pinto voltou atrás e se desculpou. Em nota, a Casa Azul lamentou o erro e tentou abafar, o quanto antes, um imbróglio que poderia se tornar internacional. Aí, sim, a Flip teria um problemão.

Ironia imensa foi ter sido, justamente Lanzmann, uma das maiores apostas de Manuel da Costa Pinto para a Flip. Uma pena. Fora, de fato, uma escolha que engrandeceria a festa, mas nem tudo acontece como planejamos. Coisas assim acontecem até com a França. Mas essa já é outra História…

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