O Segredo dos Seus Olhos, de Eduardo Sacheri, decepciona leitor

O livro O Segredo dos Seus Olhos (Suma de Letras, 212 pág., R$29,90), cujo lançamento foi noticiado pelo Literatura no Brasil, decepcionou este pobre escriba apaixonado pelo filme homônimo dirigido por Juan José Campanella. Se no cinema a história merecidamente venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro, não podemos dizer o mesmo da obra literária original de Eduardo Sacheri, que peca pela precariedade estilística, excesso de “gordura” e mau uso da variação entre narrativa em primeira e terceira pessoas. Mas para quem quer mergulhar mais no universo dos personagens transpostos para o cinema é um prato cheio.

O segredo dos seus olhos - livro

Sacheri, autor do livro (La pregunta de sus ojos, no original castelhano), é professor de História. Do ofício, levou para o seu romance de estreia (havia publicado apenas livros de contos) um panorama histórico invejável da história recente da Argentina que passa longe de ser didático; ao contrário, a ditadura militar e suas consequências para a vida comum dos argentinos é tratada de maneira problematizada, responsável e verossímil, obra de um profundo conhecedor de seu país e das paixões de seus compatriotas. Estão ali o autoritarismo e o abuso de poder próprios da América Latina, a justiça tragicamente burocrática e ineficaz, o futebol, as paixões arrebatadoras e o fascínio pela “velha e boa boemia portenha”.

Embora não seja essencial ser um profissional das letras para ser um bom escritor, uma certa qualidade estético-artística cai sempre bem, e Sacheri peca neste ponto. Suas frases cortam qualquer possibilidade rítmica, qualquer ideia que se pretendia mais longa ou mais profunda. É difícil e incômodo acompanhar um estilo que, em vez de concatenar ideias próximas numa evolução narrativa, põe encadeadas frases descritivas por vezes pueris e desnecessárias, causando a impressão recorrente de estarmos lendo uma redação de um desestimulado aluno dos primeiros anos do ensino formal. O curioso é que nas primeiras páginas o estilo é limpo, rítmico, original e, mesmo com frases de uma só palavra, vê-se ali a maneira dos bons escritores. Porém algo no meio do caminho se perde e o autor passa a contar sem vontade uma história que como muitos sabem é extremamente cativamente.

Incomoda, também, o excesso de gordura do texto de O Segredo dos Seus Olhos. Há, durante o romance, um sem-número de comentários e considerações do narrador que poderiam ser retirados ou substituídos sem que perdêssemos nada para o balanço do resultado final. São clichês sociais, frases-feitas, observações óbvias que o leitor já havia intuído ou intuições do narrador que o leitor pode considerar maneiras que o autor encontrou para dar a lauda por completamente escrita. O início e o fim não são problemáticos, mas o miolo parece ser um montante de texto que serve apenas para nos levar ao desfecho genial. Por isso é notável o trabalho de Juan José Campanella que, embora tenha trabalhado no roteiro do filme ao lado de Sacheri, usou sua experiência na direção de séries de suspense americanas para enxugar a história e não desperdiçar nenhuma cena, nenhum minuto da película.

O uso da variação entre narração em primeira e terceira pessoas também é, às vezes, um entrave para a boa leitura. Capítulos nomeados (interferências do narrador em terceira pessoa, onisciente) intercalam capítulos numerados (o romance que está sendo escrito pelo personagem Benjamín). Ocorre que as interferências do narrador-observador acabam sendo muitas vezes divagações sobre a natureza de Benjamín, o que poderia ser deixado para análise do próprio leitor caso o livro fosse escrito todo em primeira pessoa, caso o romance de Sacheri fosse justo o romance que o personagem Benjamín está a escrever depois de se aposentar.

Contudo, devemos ressaltar um detalhe: somente uma análise comparativa cuidadosa do original em castelhano e a tradução de Joana Angélica d’Avila Melo poderá dizer o quanto se perdeu de uma língua para outra. O que se pode garantir é que, contrariando todas as expectativas, o filme é melhor que o livro ou, como eu gosto de dizer, o filme enquanto cinema é melhor que o livro enquanto literatura.

O que salva Sacheri? A história é boa demais. Se o autor tivesse desanimado e estacionado no momento do insight do enredo, teríamos perdido uma excelente história e um excelente filme. O livro, como o filme, possui detalhes criados por um criador inteligente, como a metáfora da letra “A”, que falta na máquina de escrever e sobra na sigla da Aliança Anticomunista Argentina, que separa o personagem Benjamín Chaparro de sua amada Irene. Para quem sente a necessidade de mergulhar ainda mais na vida daqueles desafortunados personagens, o livro é uma boa pedida. Para quem acha que a adaptação para as telonas é o suficiente, um Borges ou um Cortázar continuam sendo as preferências argentinas.

 

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