Sem falar difícil, Antonio Candido abre a FLIP com muita emoção

Abertura da FLIP 2011 com Antonio Candido

Foto: Equipe Literatura no Brasil

Antes mesmo de ser anunciado, Antonio Candido já entrava e pegava sua cadeira no palco montado em Paraty, na tenda dos autores, para abrir a FLIP 2011. O locutor ainda explicava ao público a vida e a obra dos autores convidados, quando Candido entrou, antes de ser anunciado, e foi ovacionado por bons segundos paralisantes, enquanto o mestre de cerimônia terminava de falar sem entender nada, sem entender por que estava recebendo tantos aplausos. Mas era Antonio Candido quem passava por detrás dele, com a humildade dos que nada mais esperam de glórias possíveis em vida; com a humildade dos grandes.

Candido começou sua fala contando sobre sua amizade com o homenageado do evento, o poeta Oswald de Andrade. Esse gesto pode ser entendido como uma rejeição de toda a mitificação que se criou sobre o crítico, considerado o maior ainda vivo no Brasil. Ele iria, durante toda a sua exposição, intercalar causos e pequenas curiosidades de sua convivência com Oswald com a demonstração didática de conceitos puros da teoria literária, de análise de poesia moderna, e tudo isso sem ser nem um pouco enfadonho ou professoral.

Autor de célebres livros de crítica literária como Formação da Literatura Brasileira, que norteia os estudos acadêmicos desde sua publicação em 1972, Candido começou seu discurso falando sobre sua amizade de nove intensos anos com Oswald, e utilizou uma linguagem muito simples ao longo de seu texto, arrancando risos da plateia que não ousou dar uma palavra durante a apresentação. Era um silêncio sepulcral, e digno de nota por ser tão raro em eventos desse tipo, ou em cinemas e teatros.

Um dos principais problemas que aconteciam com a obra de Oswald eram os mitos sobre o autor, muito engraçados, contados por Antonio Candido. Coisas inimagináveis eram faladas sobre Oswald. Tudo mentira, segundo Candido.

Outro problema era a falta de livros do poeta nas livrarias e sebos. Quando o crítico comentou que não havia encontrado o livro do modernista em nenhuma livraria ou sebo, a resposta do amigo foi que nem o ele mesmo os possuía.

Candido também frisou que Oswald era suscetível à crítica e, em geral, a odiava. Poucos artigos o abordavam, diz Candido, que só se recorda de ter lido um, na época, mas sobre Mário de Andrade

Oswald malhava Candido, e não tinha limites, lembra o palestrante. Porém, o poeta tinha paixão pela literatura, e, muito embora fosse explosivo, tinha uma profunda vocação para fazer as pazes. Em uma crônica, Oswald disse: “reconciliei-me com AC”. Oswald elogiava uma pessoa e aproveitava para criticá-la. Isso aconteceu com Candido, inclusive. “Ele não sabia ficar só, precisava de pessoas, de amores, de aplausos.”

Uma coisa muito patética resultante da personalidade feroz de Oswald foi o problema de Mário de Andrade. Eram muito amigos, mas pararam de se falar. Porém, Oswald sempre quis voltar a falar com Mário, pois gostava mesmo de brigar e depois se reconciliar, por conta dessa sua candura, mas isso não funcionou com Mário, que não voltou a falar com Oswald até sua morte trágica. Para Candido, isso é patético, pois eram dois grandes nomes da literatura brasileira. Quando Mário morreu, Oswald se desesperou. “Eu considero Mário a maior figura do Modernismo brasileiro, e Macunaíma o maior livro.” “Eu queria ter escrito esse livro”, disse Oswald para Candido, em São Paulo.
Um dos maiores traços do poeta homenageado pela Flip era a mobilidade em tudo que se referia a opiniões. Queria devorar o mundo, saber de tudo, mas ao mesmo tempo brigava e desbrigava com todos, era explosivo e extremamente passional.

Oswald, diz Candido, foi sempre um inconformado. Não se conformava com a extrema injustiça da sociedade. Para ele, a sociedade encontraria suas melhores formas se governado pelo feminino: o matriarcado. Rico ou pobre, ele sempre foi inconformado com a sociedade brasileira, com as contradições da sociedade burguesa.

Manteve sempre uma grande coerência em suas ideias, embora tenha largado o stalinismo e partido para um socialismo mais aberto, humanista. Oswald, no mito que se criou, sempre foi um bicho papão, mas sempre soube usar a arma do riso. Deve-se falar sempre com alegria do poeta, um inimigo da tristeza.

Depois de morto passou a ser descoberto e estudado com mais seriedade. “Todo autor que teve muito sucesso durante a vida, é esquecido depois da morte (30 anos depois), e assim vice-versa”, diz Candido.

Uma aula inesquecível, portanto, com um intelectual de quase 93 anos, cuja memória se mantém assombrosa, além da modéstia e do talento nato para ensinar. Por isso, tarefa complicada foi a de José Miguel Wisnik, totalmente compreensível, a de falar depois de seu professor e orientador.

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