Vinicius de Moraes, o nosso poetinha

Vinicius de MoraesChamar Vinicius de Moraes de poetinha, ao contrário do que possa parecer aos desavisados, não é de forma alguma com a intenção de diminuí-lo ou menosprezar sua obra. Ele é o poetinha porque nunca quis ser Poeta, aquele que está acima de todos, vendo a vida com a sabedoria que lhe cabe. Vinicius não era assim, simplesmente foi o poetinha, que estava ali, nos bares da zona sul carioca, nas casas mais festivas da cidade (incluindo a dele), uma pessoa simples, que além da já famosa paixão pelas mulheres, tinha uma incansável paixão pela beleza da vida.

Vieram desse escritor apaixonado poemas que se tornaram ícones da nossa arte literária como O Haver, Soneto de Separação e o Soneto de Fidelidade (dos famosos versos “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”). Poderíamos citar inúmeros poemas, abertamente inspiradas no amor e em suas experiências com esse sentimento, mas ainda é preciso mencionar sua produção em prosa, que engloba textos para jornal (inclusive críticas de cinema) e peças de teatro, sendo a mais famosa Orfeu da Conceição, um adaptação da tragédia grega para a realidade de um morro carioca.

Isso tudo sem nem ter comentado sua produção musical. Ele assina uma das músicas mais emblemáticas da cultura brasileira: Garota de Ipanema (em parceria com Tom Jobim) recentemente entoada por um coro de 100 mil pessoas no Rock in Rio – é a concretização do sonho de Vinicius, ver sua música cheia de poesia ser popular, estar no coração das pessoas, embalar os namorados e divertir os amigos. Apesar de uma formação acadêmica rígida e tradicional, Vinicius sempre viu na simplicidade a beleza mais pura. Outras letras famosas traduzem sua música simples, nunca simplória, como Samba da Benção, Canto de Ossanha e a clássica Chega de Saudade. Listar toda a produção de Vinicius é façanha quase impossível e exigiria mais que uma tese de doutorado.

No entanto, a vida desse gênio nem sempre foi bela e divertida: a boemia, que tanto contribuíra para a sua produção artística, foi usada de justificativa para afastá-lo do cargo de diplomata (sim, ele também era diplomata). Apesar de ser conhecido por sua responsabilidade (nunca havia chegado atrasado, por exemplo), quando a ditadura militar no Brasil instituiu o AI-5, o servidor Marcus Vinícius da Cruz e Mello Moraes foi aposentado.  O governo alegava que sua conduta não era compatível com um diplomata. Nosso poetinha só foi anistiado em 1998, e em 2006 foi oficialmente reintegrado na carreira diplomática. A Câmara dos Deputados aprovou em fevereiro de 2010 a promoção póstuma ao cargo de “ministro de primeira classe” do Ministério dos Negócios Estrangeiros – o equivalente a embaixador, o cargo mais alto da carreira diplomática, uma homenagem mais que merecida a quem serviu o Brasil da melhor forma possível: fazendo e exportando arte.

No documentário Vinicius, de Miguel Faria Jr, vemos o depoimento de vários amigos e parceiros de trabalho, afinal, para Vinicius a vida era uma festa cheia de amigos e não havia “contato profissional”, ele só fazia parceria com quem considerava ser seu amigo. Todos são unânimes em afirmar que não existia pessoa mais animada, raro é encontrar imagens que mostrem o compositor, cantor e poeta sozinho e pensativo, naquela imagem quase oficial dos poetas. A imagem dele era outra: numa mão o copo de uísque, na outra, o cigarro e um sorriso bem grande para arrematar. Mas, infelizmente, essa imagem compunha um falso personagem: num olhar mais atento é possível notar que, aos poucos, o ânimo de Vinicius foi se esvaindo, ele começou a negar a velhice latente e a se relacionar com pessoas cada vez mais jovens (incluindo seus casamentos que têm a média de idade cada vez menor).

A companhia constante da bebida começou a preocupar os amigos, o alcoolismo batia à porta sem que se percebesse, talvez fosse uma fuga para a real situação em que Vinicius sempre se encontrou: a solidão. Ele era amigo de todos, de estrelas de Hollywood a garçons de Ipanema, mas tinha sempre uma melancolia no olhar, uma tristeza sutil que só é possível de ser percebida quando ele era observado sem notar. Afinal, o amor só é bom se doer, e gênio feliz demais não é gênio, é só mais um escritor. Vinicius morreu num de seus lugares preferidos: a banheira. Era lá que ele apoiava sua máquina de escrever e tinha o sossego necessário para escrever sua poesia que nos encantará eternamente. Na ocasião, ele preparava com o amigo Toquinho a peça A Arca de Noé, um espetáculo infantil.

Dentre a produção literária de Vinicius de Moraes, destaca-se o seu primeiro livro O caminho para a distância (1933), que surpreendeu os críticos apesar dos 19 anos de idade de Vinicius; o livro de prosa/poesia Para viver um grande amor (1962); e o Livro de sonetos (1967), reunião de sonetos escritos ao longo de 30 anos pelo poeta.

Comentário
  1. Elisa

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*